O que minha amiga negra me ensinou sobre o racismo?

19 de junho é, anualmente, o dia em que se celebra o Juneteenth (em inglês, a junção das palavras “junho” e “décimo nono”), data em que foi declarado o fim da escravidão nos Estados Unidos.

Em função dessa data, que, segundo matéria do G1, é tida como feriado oficial em 46 dos 50 estados norteamericanos (infelizmente ainda não é um feriado nacional), a Mastercard, pelo segundo ano consecutivo, declarou globalmente o dia 18 de junho como o Dia da Solidariedade e pediu a todos os seus funcionários, de todas as regiões do mundo, que se dedicassem, nesse dia, a algum trabalho voluntário ou simplesmente reservassem esse dia para estudar e aprender mais sobre diversidade, equidade e inclusão, refletindo sobre suas próprias ações e fazendo parte de uma corrente global do bem contra o racismo, a discriminação e o ódio, que, infelizmente, não têm fronteiras.

Com esse chamado da Mastercard, eu comecei a pensar como eu poderia fazer a minha parte nesse momento em que ainda sigo respeitando o isolamento, em função do momento crítico de pandemia que estamos vivendo aqui no Brasil, até que me veio uma ideia: e se eu contribuísse da forma que eu mais gosto: aprendendo e compartilhando conhecimento?

Resolvi, então, pedir a uma grande amiga, a Elizete, para me contar a sua história de vida e tudo o que ela já passou por ser negra, se assim ela se sentisse confortável. Ela topou e nós conversamos muito! Coincidentemente, 19 de junho é o dia do aniversário da “Zezete”. E essa oportunidade de contar a história dela virou um presentão para mim!

Amiga, amo você 🙂

Minha amiga lindona, Elizete 🙂

Conheci a Zezete na dança de salão há uns quatro anos e, desde o primeiro dia em que eu a conheci, a conexão foi imediata! A alegria, a leveza e o carinho dela me contagiaram e eu me senti duplamente feliz: primeiro por estar ali fazendo algo que amo e que pra mim é cura, que é dançar, e, segundo, porque eu senti que começaria ali uma linda e forte amizade. E de fato nossa amizade é assim.

A Zezete é mineira, mora na região metropolitana de Belo Horizonte, é de uma família de quatro filhas (ela e mais três irmãs) e dois irmãos, tem um filhão, o Everson, e agora tem um netinho lindo também, o Theo. Ela, a irmã “Liete”, o sobrinho Gabriel, a mãe e o pai moram juntos. A Zezete e os irmãos distribuem as responsabilidades, sendo que uma delas é cuidar da mãe com Alzheimer. Dona Eva é uma fofinha, com carinha de vovó amorosa, mas, em função da doença, vive dando sustos na família, querendo a todo momento ir para a rua (risos). O seu Édio também é desses avós que sorriem com os olhos. Zezete é filha, mãe, vovó e amiga exemplares! A Zezete faz parte da parcela da população negra, mulher e de origem pobre que trabalha na casa de famílias de pessoas brancas, com boas condições financeiras.

“Minha avó trabalhou em casa de família. Trabalhou muito e comprou o lote onde a gente construiu nossa casa hoje. Minha mãe também foi doméstica (começou a trabalhar em casa de família aos 8 anos de idade). Na minha cabeça, eu pensei: é, também vou ser doméstica. E, assim como minha mãe, eu comecei a trabalhar cedo, aos 8, 10 anos, eu já lavava vasilhas para os outros, olhava o filho dos outros. E, na hora das festinhas das filhas das patroas, as nossas mães colocavam a gente pra trabalhar lá no fundo (na organização das festas), enquanto as crianças da festa ficavam todas brincando lá na frente.

Infelizmente, nós, pretos temos que aprender a lidar com isso e a nos defender. Eu vivi o preconceito desde a infância. Era muito comum eu ouvir ofensas como: neguinha de asfalto; galinha preta. Eu chorava tanto. Hoje eu sei que a culpa não era das crianças. Eram os pais que não educavam seus filhos. E, na época, eu nem sabia me defender.

Hoje em dia preconceito é crime. Mas, antigamente, não era assim. Sempre havia uma separação entre pretos e brancos. Eu nunca participava de festinha e teatrinhos na escola, ou, quando eu participava, eu era a empregada ou aquela pessoa que ficava atrás da cortina fazendo as coisas para a peça acontecer. Dançar quadrilha? Ninguém queria dançar quadrilha comigo. E nunca me esqueço de um dia que meu irmão se fantasiou de super homem e a escola toda riu dele, dizendo que nunca tinham visto um super homem preto.

E, naquela época, com o passar do tempo, a gente ia arrumando formas de lidar com essa situação, ia tentando não dar ouvidos, por exemplo. Muitas vezes o caminho era abaixar a cabeça e fingir que não estávamos ouvindo até as pessoas se cansarem de nos agredir. Eu acabei sendo, durante muito tempo, submissa e não fazia nada. Hoje em dia eu penso: ‘gente, pelo amor de Deus, como que eu aguentei?’ Eu ficava com raiva, indignada, mas eu não sabia me defender. Meus pais não me ensinaram a me defender. Eu acabava ficando quieta, sozinha, chorando. As crianças e adolescentes de hoje já sabem mais se defender. Se alguém chamar o Gabriel de ‘negrinho do pastoreiro‘, por exemplo, ele vai ter uma resposta na ponta da língua.

Quando eu cresci, eu fui procurar emprego de doméstica e para olhar crianças, por exemplo, e eu perdi a conta das vezes que eu tive que engolir patrão me assediando, fazendo comentários nojentos de que “negra é boa de cama”. E eu me sentia muito incapaz. Eu sentia que não podia falar nada, porque, na minha cabeça, se eu falasse, ia ser pior. Eu ia ser mais agredida ainda e perderia meu emprego. Os momentos de festinha, eu detestava. Os patrões bebiam, ficavam tontos e vinham assediando a gente. Já tentaram passar a mão em mim, já tentaram me agarrar dentro de um elevador. Nesse caso do elevador, por exemplo, quando aquele velho veio pra cima de mim, eu comecei a empurar ele e, quando ele viu que eu não ia deixar ele me beijar, ele enfiou a mão no bolso, tirou um dinheiro, colocou dobrado na minha mão e falou assim: ‘toma aqui e não conta pra ninguém não’. E eu fiquei lá, parada, em estado de choque, com o dinheiro daquele velho nojento na mão.

Para criar o Everson direitiho, em boas escolas, com comida dentro de casa, eu trabalhei dia e noite. Eu só vinha pra casa no final de semana e, às vezes, só no sábado à tarde e já tinha que voltar no domingo à noite. Eu olhava os filhos dos outros para os outros olharem o meu filho. Praticamente, quem cuidou do Everson foi minha irmã Elizângela. Eu trabalhava dobrado para dar conforto para a nossa família. Eu sei que meu filho sentiu muita falta de mim. No tempo que eu tinha com o meu filho, eu tentei ensinar ele a se valorizar. Mas meu filho já sofreu muito com o preconceito também. Quando meu filho comprou a primeira moto, todos os dias ele chegava em casa e reclamava que era parado pela polícia. Quando ele andava de mulão (com muita gente), ele sempre era parado em uma batida policial. Ele já tomou até pancadas de cacetete. Eu sempre falei pra ele: ‘anda direitinho, meu filho. Anda com todos os seus documentos e evite situações que podem te fazer passar por isso’. E, sinceramente, Jaque, isso ainda é café pequeno. Tem pessoas negras que já sofreram muito mais.

Um dia eu percebi que eu estava repetindo a mesma história da minha avó e da minha mãe. Foi aí que eu tive a ideia de fazer um curso de técnico de enfermagem. Terminei o segundo grau (faltava um ano só para eu terminar), fiz as provas e passei! Com seis meses, eu terminei o segundo grau. Meu sonho era fazer instrumentação cirúrgica, mas eu não tinha como fazer esse curso. Era muito caro e eu ainda não tinha muito tempo.

Com o curso técnico de enfermagem, eu não consegui trabalhar por muito tempo em hospital. A jornada de trabalho do hospital, que era um dia sim e um dia não, começou a atrapalhar os estudos da minha irmã Elizângela. Então, quando eu terminei o curso técnico, eu ainda precisei trabalhar como empregada doméstica e, além de cuidar de uma idosa, limpava e cozinhava. Teve vezes de eu cozinhar (almoço e jantar) para 12 pessoas. Eu me sentia uma escrava.

Uma oportunidade boa veio depois de um tempo e foi a melhor fase da minha vida financeira. Eu comecei a trabalhar como cuidadora de idosos particular. Eu ganhava algo em torno de 5 salários e eu nunca tinha ganhado tanto dinheiro na minha vida! Foi uma família que me conheceu e me tirou da rotina pesada que eu tinha na casa em que eu trabalhava antes. Hoje, eu sigo trabalhando com essa mesma família. Tem anos já.

E, mesmo trabahando há muitos anos com a mesma família, até hoje eu não me sinto parte. Eles até falam comigo: ‘vem pra cá, Elizete’, mas eu não me sinto bem. Prefiro ficar lá no meu quarto, quieta no meu cantinho. É uma forma também de eu me proteger, para não me machucar, porque sempre acontece de surgir algum comentário desagradável, principalmente de pessoas de gerações mais velhas. E eu percebo diferença nas gerações de hoje, nas crianças que eu vi crescer, por exemplo.

Eu vejo preconceitos na dança também. Muitas vezes, sinto como se eu estivesse vivendo cenas da minha infância de novo diante de pessoas que não me chamam para dançar, seja no forró, no samba, no zouk. Se você não meter as caras e ir lá chamar as pessoas para dançar, dificilmente elas irão te tirar para dançar. É por isso que eu me sinto tão em casa na Kizomba, onde o povo negro brilha e onde há muita diversidade!

Hoje em dia, eu participo de vários grupos que lutam contra o racismo e uso minhas redes sociais para educar as pessoas a nos respeitarem. Me aproximo das pessoas pelo que elas são, não pela cor da pele ou pela orientação sexual, etc. Tenho muitos amigos brancos, mas minha amiga, amiga mesmo branquinha é só você (risos)”.

Para fechar, eu perguntei: mesmo diante de tanta dor, eu te vejo falar com leveza sobre o preconceito que você já viveu. O que você fez com toda a indignação que sentiu?

“Ela está aqui até hoje. E tudo o que eu passei ainda dói. Naquela época, eu não sabia o que fazer. Mas, olha, a minha cor nunca foi uma ofensa pra mim. Então, quando alguém falava comigo: ‘sua preta, sua nega, sua criolinha’, eu pensava assim: ‘eu sou mesmo! Que novidade há nisso?’ É a forma que as pessoas falam que dói. Mas hoje eu me sinto mais forte: racismo hoje é crime, sinto que há muitas pessoas do meu lado e, com o celular na mão, qualquer pessoa pode gravar situações desagradáveis para se defender”.

Ao final dessa conversa, eu fiquei pensando sobre muitas coisas: sobre o quanto nós humanos somos perversos quando ignorantes, sobre o quanto a gente ainda precisa aprender nessa vida, sobre as feridas que a gente carrega pra sempre, sobre o quanto a gente pode e DEVE praticar a gentileza uns com os outros. Enfim, sobre muita coisa.

E me lembrei também de uma palestra que assisti no CX Summit de 2019, produzido pela Track.Co, que me marcou muito. Era uma palestra com o professor e estudioso sobre antropologia do consumo Fábio Borges Mariano, na qual ele apresentou um vídeo de uma mulher falando sobre a solidão de uma mulher negra e fazendo um apelo a todas as mulheres brancas: a acolherem as mulheres negras e aos filhos das mulheres negras, para acabar de uma vez por todas com uma divisão velada que em muitos ambientes e situações ainda persiste entre negros e brancos.

Eu chorei horrores com esse vídeo. A dor dessa mulher me doeu demais. Deixo aqui um link para você conferir esse vídeo, expandir ainda mais seu conhecimento e ser mais um agente de transformação neste mundo: https://mundonegro.inf.br/elasnaoquerembrincarcomigo/

E se você quiser conhecer mais sobre a Zezete, é só ir no insta: @negalizete